Exposição Cynthia Pimentel​​, agosto de 2025. l Galeria Lacerdine
Exposição de 14 a 30 de agosto de 2025 - Cynthia Pimentel expôs 31 obras de médias e grandes dimensões.
Exposição/Exhibition
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Quadros/Paintings
Dia da Abertura/Vernissage
Sobre a Exposição Individual na Galeria Lacerdine - agosto de 2025
O público que adentra as novas dependências da Lacerdine Galeria de Arte certamente é afetado pelas telas de grande dimensão agora exibidas. Entre essas ressonâncias e atravessamentos, quem conhece a prolífica produção de Cynthia Pimentel pode perceber, indubitavelmente, um estado inquieto, uma vontade de experimentação e um mergulho de ímpeto em algo ainda em construção, prenhe de significados e desdobramentos, talvez ainda não nomeado.
Pois se em Imaginarium (2024), o début da artista carioca em individuais, as específicas salas de exposição da Gare – misto de escola de artes e espaço expositivo para projetos de nomes emergentes – propiciavam uma sensação de maravilhamento, hoje, nas elegantes dependências da galeria existe uma atmosfera de presença móvel, sem amarras dogmáticas de estilo e rumo às possibilidades plásticas e conceituais com que o pictórico lida - sempre a negar a morte de tal linguagem, persistentemente vociferada não apenas pelos cantos dos nossos circuitos. Não é à toa que uma das principais telas da mostra de hoje chama-se Tormenta.
Nesta acrílica sobre linho de 1,50 m x 1,20 m, o azul que oscila entre claridade e profundidade parece tomado por jogos de pincel em traços mais solares. Nesse tipo de particular oceano, o cromatismo utilizado pela artista gosta de afirmar mais o gesto – no recorte de Imaginarium pôde se perceber mais uma atmosfera mais geral em campos de cores que lançavam todos para uma declarada imersão – e gerar pequenos sismos em ambientes outrora mais harmônicos.
É bom frisar, no entanto, que essas reverberações não são apenas truques de fazer pictórico. Também sedimentam essa energia amalgamada por cores, volumes, formas e superfícies que, mesmo que não plácidas, criam um conforto ao espectador – lá fora, quase uma vítima de uma miríade de estímulos não apenas no campo visual. Cynthia Pimentel não nega a beleza do mundo, e talvez seu trabalho cotidiano em ateliê agora incorpore mais processos e ferramentas, contudo por meio de uma forte assinatura.
Também é interessante notar que o mesmo azul empregado em Tormenta, em trabalhos próximos, possa levar a calmarias almejadas, porém talvez só em perspectivas a priori – Peaceful Day –, e movimentos mais nervosos – Transparência lida com algo lúgubre, quase como uma tempestade já anunciada há tempos.
E nessa vertente atualmente mais exploradas no labor de Pimentel talvez venham alguns passos em direção ao figurativo. Possivelmente menos passos, mais piscadelas, como se a artista fugisse por outras veredas, ganhasse experiência e tomasse novamente as rédeas, já mais madura, no abstrato. Como a afirmar a potência dessa faceta visual por vezes tão combatida por uma propalada alienação, e que, na verdade, tem mais a ver com as parcas perspectivas com que são lidas obras que são atemporais. E que, contrariamente, também falam tanto sobre os nossos dias, mas a distanciar-se de enquadramentos literais. Nesse sentido, podemos criar referências de paisagens concretas em obras como Powerful Blue, Green Forest e Planctum. “(...) Parece que a paisagem é constantemente confrontada com um essencialismo que a transforma num dado natural. (...) A mestiçagem dos territórios, a ausência de fronteiras entre as propriedades são bem uma marca do contemporâneo; a paisagem não foge a essa regra”, escreve Anne Cauquelin no clássico A Invenção da Paisagem.Um bom fecho talvez seja a desafiadora tarefa de criar, com tal qualidade, o díptico Intenso, empreendimento pictórico-visual de 1,58m x 4m, a potencializar a plasticidade dos olhares no mezanino da galeria. Contudo, a habilidade da artista pelo vermelho se estende por toda a exposição em sedutoras telas como Colors of Earth, Red Evolution, Joye Explosion. Porém se nos ativermos a um trabalho tão singular como Mystery, uma tradicional acrílica sobre tela de 1,2m x 0,9m, realmente é muito palpável a desenvoltura de Cynthia Pimentel nessa potente criação de mundos tão belos (e necessários), às vezes com bem pouco.
Mario Gioia, julho de 2025
On the Solo Exhibition at Galeria Lacerdine – August 2025
Visitors entering the new premises of Lacerdine Art Gallery are inevitably struck by the large-scale canvases now on display. Amid the resonances and impressions they evoke, those familiar with Cynthia Pimentel’s prolific body of work can unmistakably perceive a state of restlessness — a will to experiment — and a bold plunge into something still in formation, brimming with meaning and unfolding possibilities, perhaps not yet named.
If in Imaginarium (2024), the artist’s debut solo exhibition, the dedicated spaces of Gare — a hybrid between an art school and a venue for emerging artists — offered a sense of wonderment, now, within the elegant surroundings of Lacerdine, there exists an atmosphere of mobile presence, free from the dogmatic constraints of style, heading toward new pictorial and conceptual possibilities. These reaffirm painting’s vitality — ever resisting the oft-repeated notion of its death, echoed in so many corners of the art world. It is no coincidence that one of the central works in this show is titled Tormenta (Storm).
In this acrylic on linen measuring 1.50 m x 1.20 m, the blue — oscillating between lightness and depth — seems animated by a play of brushstrokes infused with sunlight. Within this particular ocean, the chromatic approach chosen by the artist asserts the gesture itself — whereas in Imaginarium, the compositions tended toward immersive fields of color, now they generate small tremors in environments once more harmonious.
It is important to emphasize, however, that these reverberations are not mere tricks of painterly technique. They consolidate an energy amalgamated through colors, volumes, forms, and surfaces, which, even when not placid, offer a kind of comfort to the viewer — someone who, outside the gallery, is nearly a victim of an incessant flood of stimuli, not only visual. Cynthia Pimentel does not deny the beauty of the world; her daily studio practice may now incorporate new processes and tools, yet always through the prism of a strong and personal signature.
It is also noteworthy that the same blue employed in Tormenta may, in related works, lead to desired calms — though perhaps only at first glance — as in Peaceful Day, or to more agitated movements, as in Transparência (Transparency), where something somber emerges, like a long-foretold storm.
In this direction — one now more deeply explored in Pimentel’s recent production — there may be steps toward the figurative. Perhaps not full steps, but rather glimpses, as if the artist were briefly detouring, gaining experience, and then reclaiming abstraction with greater maturity. It is as though she reaffirms the power of this visual language, so often contested as alienating, but in truth misunderstood due to the narrow lenses through which timeless works are sometimes read. Paradoxically, her paintings also speak profoundly of our present, while distancing themselves from literal frameworks.
In this sense, one may find echoes of concrete landscapes in works such as Powerful Blue, Green Forest, and Planctum. As Anne Cauquelin writes in the classic The Invention of Landscape:
“(…) It seems that landscape is constantly confronted with an essentialism that transforms it into a given of nature. (…) The hybridization of territories, the absence of boundaries between properties, are indeed marks of the contemporary world; landscape does not escape this rule.”
A fitting conclusion might lie in the challenging task of creating, with such refinement, the diptych Intenso — a pictorial and visual enterprise measuring 1.58 m x 4 m — which heightens the plastic vitality of perception in the gallery’s mezzanine. Yet the artist’s mastery of red extends throughout the exhibition in seductive canvases such as Colors of Earth, Red Evolution, Joy, and Explosion.
Still, if one lingers before a singular piece such as Mystery — a traditional acrylic on canvas, 1.2 m x 0.9 m — one can clearly perceive Cynthia Pimentel’s expressive ease in creating such powerful and beautiful worlds — worlds that, in their subtlety, feel as essential as they are rare.
Mario Gioia, julho de 2025
Biografia de Mario Gioia - Curador
São Paulo, 1974
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Curador independente e crítico de arte, é graduado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Foi crítico convidado de 2013 a 2015 do Programa de exposições do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Vive em São Paulo
Em 2015, no CCSP, fez a curadoria de Ter lugar para ser, coletiva sobre as relações entre arquitetura e artes visuais. Em 2011, passou a integrar o grupo de críticos do Paço das Artes, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Exercícios cosmopolíticos (2023), de Gustavo Torrezan, Luz vermelha (2015), de Fabio Flaks, Black market (2012), de Paulo Almeida, e A riscar (2011), de Daniela Seixas, além de Ateliê Fidalga no Paço das Artes (2010).
Em 2019, iniciou o projeto Perímetros no Adelina Instituto, em São Paulo, com artistas ainda sem mostras individuais na cidade.
Em 2016, a mostra Topofilias, com sua curadoria, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em Porto Alegre, foi contemplada com o 10º Prêmio Açorianos, categoria desenho. Na feira ArtLima 2017 (Peru), assinou a curadoria da seção especial CAP Brasil, intitulada Sul-Sur, e fez o texto crítico de Territórios forjados (Sketch Galería, 2016), em Bogotá (Colômbia). Em 2018, assinou a seção curatorial dedicada ao Brasil na feira Pinta (Miami, EUA) e a curadoria de Esquinas que me atravessam, de Rodrigo Sassi (CCBB-SP).
Já fez a curadoria de mostras em cidades como Brasília (Decifrações, Espaço Ecco, 2014), Porto Alegre (Fulgor na noite, Galeria Mamute, 2022), Rio de Janeiro (Histórias naturais, Caixa Cultural, 2014) e Salvador (Fragmentos de um discurso pictórico, Roberto Alban Galeria, 2017), entre outras. É colaborador de periódicos como Arte al Día.

